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“Foi um ataque contra a democracia e também um exemplo de racismo”, diz historiador sobre invasão no Congresso americano

Áudio 06:58
Partidários do presidente Donald Trump enfrentam policiais nos arredores do Capitólio, em Washington, em 6 de janeiro de 2021
Partidários do presidente Donald Trump enfrentam policiais nos arredores do Capitólio, em Washington, em 6 de janeiro de 2021 Brendan Smialowski AFP
Por: Elcio Ramalho
14 min

As cenas de violências protagonizadas pelos partidários do presidente Donald Trump durante a invasão do Congresso em Washington foram mais que um ataque à democracia dos Estados Unidos. O caso mais uma vez colocou em evidência os problemas de racismo e discriminação que permanecem na sociedade americana, segundo o historiador Jeffrey Lesser, diretor do Instituto de Pesquisas Globais da Emory University, na Geórgia.

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“O episódio serviu para lembrar o povo americano que tendências históricas continuam. Às vezes, muitos americanos são otimistas e gostariam de esquecer sua história e sua realidade, mas ontem, (a invasão) nos lembrou que essas tendências estão conosco ainda”, afirmou o especialista.

Após um comício de Donald Trump, onde foram estimulados pelo presidente a se dirigir ao Capitólio para denunciar uma eleição que consideram fraudada, os partidários invadiram o Congresso, interrompendo a sessão programada para ratificar a vitória de Joe Biden nas urnas. As cenas de violência repercutiram em todo o mundo provocando reações de repúdio dentro e fora dos Estados Unidos. Jeffrey Lesser vê no episódio um marco histórico que vai além do que para ele ficou configurado como uma tentativa de golpe.  

“Vai ser lembrando como uma tentativa de golpe e também como mais um exemplo do problema racial nos Estados Unidos, no sentido de que protestos muito pacíficos de representantes afro-americanos foram reprimidos com violência policial, o que não aconteceu ontem”, explica.“Para qualquer um que viu as imagens na televisão, ficou claro que a população (que invadiu o Capitólio) não tinha diversidade, era de homens brancos”, observou, em referência à atuação dos policiais.

Para os habitantes do estado da Geórgia, onde Jeffrey vive e trabalha, também ficou evidente a ligação da violência em Washington com divulgação dos resultados, no mesmo dia, da votação que garantiu uma vitória inédita no estado a dois candidatos democratas ao Senado, o afro-americano Raphael Wornock e o judeu Jon Ossof.  “Muitas pessoas aqui dizem que talvez essa tentativa de golpe foi uma reação à eleição de um senador negro e de um senador judeu-americano, o que aconteceu pela primeira vez no estado da Geórgia. Dá para ver que além da questão antidemocrática, tem a questão de racismo nesta tentativa de golpe”, justifica.

Ilusão de serem seguidos por Trump

Em sua análise, Jeffrey Lesser afirma que houve uma tentativa de golpe por parte dos partidários de Trump porque eles tinham esperança de que a invasão teria apoio de Trump, de senadores republicanos ou do Exército. “Isso era um sonho deles”.

“Foi um ataque contra a democracia, mas é preciso deixar claro que esse ataque não começou ontem, mas um ano atrás ou mais, quando o atual presidente falou abertamente que se ele perdesse seria uma fraude, porque era impossível ele perder. Isso é a fala de um ditador. Uma retórica antidemocrática” ressalta. 

“Houve uma ideia que democracia não existia fora do poder de Donald Trump. Ele conseguiu convencer um grupo, que considero pequeno e extremamente fora do centro dos Estados Unidos, que a opção deles era a violência e que democracia era uma ideia falsa. Ontem, vimos essa realidade e Trump continua a fazer isso”.

O historiador da Emory University também comentou a mensagem do chefe da Casa Branca na manhã desta quinta-feira, quando pediu uma “transição ordenada”, apesar de reiterar que não aceita o resultado das eleições que considera fraudades, mesmo sem ter mostrado provas e ter perdido todos os recursos nos tribunais.

“Ele falou ao mesmo tempo que vai haver uma transição dentro de duas semanas, mas que todo mundo sabe que ele ganhou as eleições e os resultados são falsos, ou seja, ele não parou com os ataques contra a democracia”, insiste Jeffrey.  

O historiador Jeffrey Lesser
O historiador Jeffrey Lesser © Emory University/Divulgaçao

Futuro do “trumpismo”

Apesar do contexto de tensão, o especialista não considera que Trump tenha provocado uma fratura no país, pois ela já existia e apenas ficou exacerbada pela visibilidade dada pelo chefe de Estado a grupos extremistas.

“Um presidente ou outro não cria ou descria racismo, sexismo ou homofobia. São tendências, seja nos Estados Unidos, Canadá, Brasil, etc. O que o sistema político pode fazer é dar mais espaço para essas tendências”, teoriza. “Biden, o novo Congresso e um gabinete, com mais diversidade de raça, etnicidade, e opção sexual, não vão convencer os ‘Proud Boys' e os grupos fascistas nos Estados Unidos a mudar”, afirma.

Para Jeffrey Lesser, o atual presidente deve ser ofuscado da cena política após a posse de Joe Biden, em 20 de janeiro. A mudança dará espaço para políticas que devem ajudar a virar a página da era “Trump”, como o plano nacional de vacinação contra a Covid-19 e os pacotes de ajuda financeira a empresas e à população. No entanto, sua saída do poder deixa uma interrogação sobre o futuro desses grupos radicais que o apoiam.

“Certamente esses grupos, que são milícias, vão continuar porque eles não são nada novos. Os ‘Proud Boys’ e outros são a herança do Ku Klux Klan, que existe desde o século 19. Com certeza eles vão continuar. Acho que a maioria dos americanos espera que o sistema político não vai dar um megafone para esses grupos como o Trump deu”, afirma.

Sobre o futuro do magnata, que se elegeu de maneira surpreendente em 2016 contrariando projeções, Jeffrey Lesser prevê que ao deixar o poder, sua voz tende a ser menos audível, principalmente pela menor repercussão que terá nas redes sociais e na mídia. “É possível que a partir de 29 de janeiro ela vá perder Twitter, Facebook ou Instagram. A imprensa não vai mais falar tanto dele. Ele não vai se retirar, mas vai ter menos poder”.

Resta saber ainda sobre a postura e orientações do Partido Republicano com a saída de um presidente que deixou uma base sólida, reforçada pelos mais de 70 milhões de votos conquistados na última eleição. Segundo Lesser, vai haver uma “guerra” no interior do partido. “Vai haver uma ‘guerra civil’, não como um ‘bang-bang’, mas em termos de discursos. Vai ser um partido tradicional ou um partido 'trumpista'? Os republicanos vão precisar resolver essa questão internamente”, afirma.  

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