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“Postura ideológica do clã Bolsonaro atrapalha interesses do país", diz especialista em Relações Internacionais

Áudio 06:58
O cientista social, Ariel Finguerut.
O cientista social, Ariel Finguerut. © Arquivo pessoal
Por: Raquel Miura
12 min

Especialista diz que postura ideológica, como apoio insistente a Donald Trump, prejudica o país e rompe com anos de tradição multilateralista do Itamaraty. 

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Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

Em entrevista à RFI, o cientista social Ariel Finguerut, especialista em Relações Internacionais e doutor em Ciência Política pela Unicamp, disse que o governo de Jair Bolsonaro conseguiu em dois anos colocar em xeque toda uma história de multilateralismo e respeito construído pelo país. “Essa postura assertiva e ideológica da família Bolsonaro atrapalha os interesses do país, especialmente quando se considera a tradição multilateralista da diplomacia brasileira", diz ele.

"O Brasil sempre apostou numa espécie de soft power, como um ator que articula os interesses internacionais, que participa de debates relevantes, que tem credibilidade lá fora. Então à medida que o Brasil adota agora uma agenda ideológica e agressiva em relação ao multilateralismo é como romper com essa longa tradição, construída durante séculos e que, de repente, você mina em dois anos. Credibilidade é assim. Você leva anos para construir e rapidamente você a destrói”, acrescenta o especialista.

Em meio a acusações graves de tentativa de reverter os resultados eleitorais no estado da Geórgia e contestar a vitória de Joe Biden, Donald Trump continua inspirando o clã Bolsonaro e também autoridade do governo brasileiro, a ponto do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e que atua como um chanceler informal, ter visitado esta semana a Casa Branca, a convite da filha de Trump.

Nessa terça-feira, ao descer para falar com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, o presidente brasileiro endossou teorias conspiratórias de Trump. “Veja a suspeição nas eleições norte-americanas. Tem brasileiro lá que não tinha direito de votar e acabou recebendo papel para votar”, afirmou Bolsonaro.

Para Finguerut, “esse é o estrago que eles estão fazendo. O Brasil virou um país pária nas discussões, não articula mais, não é chamado mais para reuniões importantes, não é respeitado, é agora colocado ao lado de países que têm uma postura ideológica”. Porém ele não acredita em retaliação por parte do novo governo dos Estados Unidos.

“Olhando pela lógica do governo Biden, acredito que eles não terão uma intenção de bater de frente, de ir para a briga. Eles vão querer reconstruir o que Trump destruiu, de órgãos a tratados, como a participação na própria ONU e, para isso, os Estados Unidos de Biden vão precisar de diplomacia e não de retórica", contextualiza.

"Agora há dentro do governo Biden pessoas comprometidas com pautas que podem confrontar sim posturas do governo Bolsonaro, como a questão climática e de combustíveis fósseis. Isso pode gerar maior pressão sobre o Brasil, sobre o agronegócio. E pode gerar embates daqui a um ano e meio ou dois anos”, antecipa Finguerut.

Jogo duplo

O analista avalia que “o Brasil já está isolado” e, para sobreviver e não gerar maiores impactos nas relações comerciais, o país viverá sob "dois discursos, duas agendas". “Não temos boa interlocução com a Europa, com nossos vizinhos da América do Sul e não estamos construindo bases para uma boa relação com os Estados Unidos. Isso resulta naquela dubiedade, uma saída em que o país tem uma agenda ideológica e outra paralela, mais pragmática. Então o governo Bolsonaro deverá atacar pontos do governo Biden, mas, por necessidade, também terá canais atuantes nessa relação, já que se trata do segundo parceiro comercial, atrás apenas da China. Isso é o que fazem países mais ideológicos, como Israel e Irã”, afirma.

Bolsonaro chegou a afirmar que o Brasil teria apoio dos Estados Unidos de Trump, por exemplo, no ingresso na OCDE, organização que reúne em sua maioria os países ricos, o que não ocorreu. Ao contrário, brigas nacionalistas travadas com a China acabaram prejudicando produtos brasileiros, sobretaxados por Washington.

“O Brasil não conseguiu nenhum ganho concreto nessa relação em dois anos. Foi uma aposta em que o Brasil perdeu. Já os Estados Unidos conseguiram algumas vantagens, especialmente para o meio-oeste americano, como questões ligadas ao etanol”, analisa.

Trump sai, mas não morre politicamente

Apesar da retórica considerada absurda contra o resultado das urnas e da postura caricatural do presidente americano, o cientista social ouvido pela RFI diz que o capital político de Trump não esvaiu e pode render futuros novos capítulos.

“Não diria que Trump foi totalmente abandonado pelos republicanos. Apesar de ser quem ele é, de tudo o que ele fez, das tentativas de minar instituições, críticas à União Europeia, à ONU, elogios a ditadores, de sua atuação na pandemia, apesar de tudo isso, ele conseguiu quase metade dos votos dos americanos que foram às urnas. Isso não é desprezível. Ele mesmo já se coloca como candidato da próxima eleição. Não dá para dizer se terá sucesso, mas indica que tentará. E já tem políticos, senadores, que parecem querer herdar o discurso de Trump”, conclui o especialista.

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