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Macron não viu que estratégia de vacinação de outros países era muito mais rápida, diz analista francês

Áudio 07:03
O cientista político Stéphane Witkowski
O cientista político Stéphane Witkowski RFI
Por: Elcio Ramalho
12 min

A lentidão da campanha de vacinação contra a Covid-19 na França desencadeou uma onda de críticas ao governo do presidente Emmanuel Macron. Adotada levando em consideração a experiência do país com crises sanitárias e o ceticismo dos franceses em relação à vacina, a estratégia do país teve que ser revista para combater a imagem de atraso do país na resposta à pandemia.

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A França começou a vacinação no final de dezembro, junto com outros países europeus, mas até esta segunda-feira (4), apenas cerca de 2 mil pessoas haviam sido vacinadas. O resultado é bem distante da previsão de ter 1 milhão de franceses imunizados até o final do mês. Nesta primeira fase, a prioridade do governo é vacinar idosos nas casas de repouso e os profissionais de saúde com mais de 50 anos que trabalham nestes locais

A França reforça sua imagem de "atrasada" principalmente quando comparada a países como Alemanha, que já vacinou mais de 230 mil pessoas no mesmo período, e ao Reino Unido, com mais de 1 milhão de vacinados desde o início de dezembro.

O próprio presidente francês Emmanuel Macron mostrou insatisfação com o ritmo da campanha, e diante das críticas da oposição e de diversos segmentos da sociedade, reuniu na noite de segunda-feira seus colaboradores para pedir aceleração da vacinação.

Nesta terça-feira (5), o ministro da Saúde Olivier Véran anunciou novas medidas para acelerar a vacinação, como a criação centros de imunização em várias regiões do país.

As críticas da gestão da crise sanitária na França não são recentes. Na primeira onda da Covid, em abril, o governo foi responsabilizado pela falta de máscaras, e, na sequência, na segunda fase da pandemia, foi criticado pela ausência de um plano eficiente para testar massivamente a população.

A fase da vacinação é considerada por observadores políticos como crucial para Macron mostrar controle sobre a gestão e pavimentar seu caminho para tentar a reeleição em 2022.

“Claramente ele está preparando a eleição presidencial de 2022. Ele deve ser muito prudente na gestão desta crise para evitar consequências políticas, econômicas e sociais em um contexto internacional muito complicado. Ele está na última fase de seu mandato antes de tentar a reeleição e deve ser prudente diante das críticas da população que são muito fortes. Há muita desconfiança e os franceses estão muito céticos com essa vacinação”, destaca Stéphane Witkowski, presidente do Conselho de Gestão do Instituto de Altos Estudas da América Latina da Universidade Sorbonne.

Aprendizado com os erros

O especialista lembra que a estratégica de Macron foi definida em meados de dezembro após encontros no Palácio do Eliseu com grupos políticos, parlamentares e conselheiros científicos. O presidente levou em conta os erros das fases anteriores da gestão da crise sanitária e também a reticência dos franceses em receber a vacina, confirmada por várias pesquisas de opinião pública.

“Macron aprendeu com os erros e sabendo que a população é contra, precisava de um consenso político interno. A vacinação começou respeitando totalmente a política definida por ele mesmo, porque toda a estratégia em relação à política é feita juntamente por ele com o primeiro-ministro, o ministro da Saúde e outros membros do Conselho de Defesa”, explica Witkowski.

“Ele não viu que os outros países organizaram a vacinação de maneira muito mais rápida, dando a impressão que a França está muito atrasada com sua política”, acrescenta o especialista.

França ficou para trás na criação de vacina 

A França também é o único país membro permanente do Conselho de Segurança da ONU que ainda não tem sua própria vacina. Os outros aliados, Estados Unidos, Rússia, Reino Unido e China, desenvolveram seus próprios imunizantes, contribuindo para reforçar as críticas do atraso do país no cenário internacional.

“Não é uma prioridade no debate público interno. Os franceses não falam muito disso, mas no círculo de dirigentes, muito se fala sobre isso. Essa preocupação evidente de não ser distanciado por outros países no mundo nessa competição que é muito forte, é muito simbólica. É consequência de uma política global da imagem e da posição da França na cena internacional”, defende Witkowiski.

Para passar uma mensagem de transparência na condução desta campanha de vacinação, o governo francês decidiu criar um “Comitê Cidadão” e vai sortear 35 franceses da sociedade civil para integrar esse grupo. O objetivo da instância será observar e fazer recomendações sobre o processo de vacinação. Mas a estratégia de comunicação terá alcance limitado, na opinião de Witkowski.

“A política francesa contemporânea está muito ligada à comunicação, à imagem, à televisão e às redes sociais. Essa dimensão é muito importante na maneira de fazer política hoje, em 2021. Essa iniciativa faz parte desses elementos de imagem para o exterior. Mas não estou convencido com o que 35 cidadãos franceses sorteados, sem competência médica específica, possam contribuir”, conclui.

 

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