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RFI Convida

Disseminação de testemunhos da violência de Estado no Brasil é remédio contra negacionismo, diz historiador

Áudio 07:04
Celso Castro, diretor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da FGV
Celso Castro, diretor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da FGV © Divulgação / FGV
Por: Cristiane Capuchinho
12 min

Criado em 1973, o CPDOC, da Fundação Getulio Vargas, reúne um dos principais acervos sobre a história recente do Brasil, com material importante sobre a ditadura Vargas e a ditadura civil-militar. Em entrevista ao RFI Convida, Celso Castro, diretor do centro, defende a disseminação de fontes históricas e de testemunhos da violência de Estado como forma de combater a onda negacionista no Brasil e relata o esforço que o CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) tem feito para digitalizar acervos de mulheres importantes da história nacional.

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O acervo começou com os documentos pessoais de Getulio Vargas. Logo se juntaram os acervos de Gustavo Capanema, ministro da Educação da era Vargas, do diplomata Osvaldo Aranha e do patrono da educação Anísio Teixeira. Desde então, a coleção não parou de crescer. Atualmente o CPDOC conta com mais de 200 acervos pessoais, além de mais de 8.000 horas de entrevistas e gravações com nomes importantes da história política recente do Brasil.

É na preservação e na divulgação desse material que Castro aposta para combater as tentativas de negacionismo histórico.

"O negacionismo parte de um pressuposto ideológico e se distancia da realidade para tentar disseminar ou comprovar uma ‘verdade’ que não corresponde àquilo que a grande maioria dos historiadores e dos cientistas sociais teriam a dizer sobre os eventos. Isso acontece no mundo inteiro. É um fenômeno que atinge desde o Holocausto até a ditadura militar brasileira. Para combater isso, eu acho fundamental em primeiro lugar ter fontes históricas produzidas, preservadas e disseminadas", afirma o pesquisador, autor de um vasto trabalho sobre os militares no Brasil.

"O papel dos historiadores é, em primeiro lugar, divulgar e disseminar o respeito à realidade, através de documentos escritos, orais, testemunhos. Qualquer pessoa, no caso específico do CPDOC, pode ver depoimentos de pessoas, inclusive de pessoas que atuaram dentro do regime, falando sobre questões que envolvem violência de Estado e tortura. Quanto mais disseminadas essas fontes e o conhecimento produzido a partir delas, isso serve como um antídoto ao discurso que busca negar, ocultar ou torcer esta realidade", defende.

O conjunto de documentos reunidos pela FGV tem preciosidades como as entrevistas dadas pelo General Ernesto Geisel em 1993 sobre o período da ditadura.

O desafio enfrentado pelo centro é o de ampliar a digitalização do material para facilitar o acesso. "É um acervo enorme e não está tudo digitalizado. Temos mais ou menos metade dos documentos textuais digitalizados. E, em termos de história oral, um pouco mais que isso", conta Castro.

Essa passagem de suporte não é simplesmente uma questão técnica. Ele abre discussões éticas, de acesso e de preservação do material para gerações futuras. Os temas, que preocupam especialistas em patrimônio e história por todo o mundo, serão debatidos na mesa redonda "História Oral e Audiovisual: divulgação científica em cenário digital", que acontece nesta quinta (25).

Diversidade e inclusão nas fontes históricas

A discussão sobre a atualização do acervo trouxe uma nova preocupação para o CPDOC: a reunião de fontes mais diversas no centro de pesquisa.

"Tínhamos mais de 200 arquivos pessoais e apenas 11 eram mulheres. Podemos usar o argumento cômodo de que isso refletia também o que era a elite política brasileira, que era até muito recentemente quase que exclusivamente masculina e a mulher tinha uma posição muito periférica e subalterna até muito pouco tempo atrás", afirma Castro.

A falta de acervos reflete na pesquisa acadêmica, que tem pouco material à disposição para falar sobre a participação das mulheres em diferentes momentos da história recente.

Para melhorar o cenário, em vez de optar pela comodidade, o centro passou a fazer uma busca ativa de arquivos de mulheres importantes como ativistas políticas ou cientistas sociais. Entre elas, conta o diretor, o da antropóloga Yvonne Maggie, da socióloga Alba Zaluar e da ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina.

Além disso, o CPDOC lançou este ano o arquivo histórico de nove personalidades femininas, entre elas a sindicalista Almerinda Farias Gama, a poetisa Anna Amélia de Queiroz e a jornalista Niomar Moniz Sodré Bittencourt, que teve os direitos políticos cassados pelo AI-5.  Todos estão agora disponíveis para consulta no site da instituição.

 

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