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Economia

Pagamento da conta do segundo lockdown na Europa é bola de neve para 2022

Áudio 05:39
Uma mulher caminha pela avenida Champs Elysees quase vazia em Paris, sábado, 31 de outubro de 2020.
Uma mulher caminha pela avenida Champs Elysees quase vazia em Paris, sábado, 31 de outubro de 2020. AP - Lewis Joly
Por: Lúcia Müzell
12 min

Pouco a pouco, os países europeus voltam a entrar em um novo lockdown para combater a pandemia de coronavírus. Com restrições mais rígidas, como na França, ou tolerantes, como na Alemanha, a segunda onda de Covid-19 vai acentuar ainda mais a recessão no bloco e aprofundar a dívida dos países – uma conta colossal que tende a ser ignorada até 2022, antecipam analistas.

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O governo francês acaba de anunciar a liberação de mais € 20 bilhões para o plano de emergência para socorrer empresas e salvar empregos no país, além dos € 80 bilhões já previstos no primeiro bloqueio nacional. Da mesma forma, os vizinhos Alemanha, Reino Unido e Itália, entre outros, também calibram a verba disponível para compensar as novas restrições. O bloco europeu adotou a estratégia do “open bar” de recursos, afirma o professor de Economia da Sorbonne (Université Paris 1) Christian de Boissieu.

"A curto prazo não tem outra alternativa: temos que colocar tudo na mesa. A casa está queimando, temos que chamar os bombeiros e eles se chamam Bancos Centrais e Estados”, afirma Boissieu. "A hora de retomar o controle de tudo isso, ou seja, das dívidas públicas e privadas, não será antes de 2022, com a volta do crescimento econômico e num contexto em que as taxas de juros devem continuar baixas. Esse cenário deverá evitar que a gente transmita essa montanha de dívidas para as gerações futuras."

Desta vez, bloqueio é mais "light"

Diante da alta surpreendente dos contágios no início do outono, os países europeus ficaram “sem escolha”, frisa Boissieu. Mas o novo lockdown é menos restritivo que o primeiro e tenta, ao máximo, conciliar a melhor atividade econômica com a emergência sanitária.

"É preciso salvar vidas; as vidas são mais importantes que todo o resto. A taxa de crescimento também é, claro. Por isso temos agora essa tentativa de um bloqueio mais ‘light’”, observa o professor da Sorbonne.

Christian de Boissieu, professor de Economia da Sorbonne (Université Paris 1)
Christian de Boissieu, professor de Economia da Sorbonne (Université Paris 1) © Reprodução France 24

As medidas contra a Covid-19 acontecem em um momento em que a Europa já enfrentava a maior recessão desde a Segunda Guerra Mundial, com um impacto quatro vezes superior à crise financeira de 2008.

"Esse segundo bloqueio talvez seja mais difícil no sentido que ele acontece depois de um primeiro lockdown, que já tinha abalado muito a economia. O risco hoje é maior do que era em março”, avalia o pesquisador Mathieu Plane, do Observatório Francês de Conjuntura Econômica (OFCE).

"A questão agora é quanto tempo vai durar essa situação instável, o que nos leva diretamente à questão da dívida pública, que é o que está impedindo o desmoronamento da economia. Os planos de desemprego parcial e ajuda às pequenas e médias empresas têm um preço e, quando sairmos dessa pandemia, haverá estragos colossais para reparar”, reitera.

Enxurrada de recursos evita implosão da zona do euro

É o Banco Central Europeu quem tem garantido a enxurrada de dinheiro disponível no bloco contra a crise, graças a juros próximos de zero e uma política de estímulo a empréstimos. "Quando vemos a intensidade do choque e a dívida que está gerando nos países, em especial os mais frágeis, como a Itália, fica claro que se o Banco Central Europeu não estivesse garantindo o financiamento dos Estados a juros baratos, provavelmente alguns países já estariam em situação de calote, ou seja, estariam também numa crise financeira e do sistema monetário”, garante Plane. "O BCE é o fiador de todos hoje."

Mathieu Plane, do Observatório Francês de Conjuntura Econômica (OFCE).
Mathieu Plane, do Observatório Francês de Conjuntura Econômica (OFCE). © Reprodução France Info

Por enquanto, a prioridade dos governos é resgatar a qualquer custo a confiança das empresas e o consumo pelas famílias, embora o futuro seja de incertezas pelo menos até 2021, por conta da pandemia. A conta do coronavírus vira uma bola de neve, mas o seu pagamento ainda não está no radar.

"O debate não é esse, se teremos de aumentar ou não os impostos, mas sim quanto desse choque nós podemos aliviar agora, quantas lojas e empresas podemos salvar, quantos empregos podemos manter”, analisa o pesquisador do OFCE. “E isso será extremamente importante no futuro, para o financiamento dessa dívida que criamos hoje: quanto mais conseguirmos preservar a economia e os empregos, mais ‘fácil’ será de reembolsar.”

Sem lockdown, Estados Unidos não evitaram recessão

Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, o governo de Donald Trump se vangloria de o país ter registrado uma alta espetacular do PIB no terceiro trimestre, de 33%. O país não chegou a implementar lockdown nacional, mas é o mais atingido do mundo pela pandemia, destaca Christian de Boissieu.

"Os Estados Unidos vão ter, no acumulado do ano, uma recessão também. Ela deve ser menor do que a europeia. A França deve ter uma recessão de 11%, a zona do euro em torno de 8 ou 9%, e os Estados Unidos devem ter -5 ou -6% – mas com mais de 230 mil mortos, até agora”, ressalta o professor de Economia. "Acho que é um número altíssimo de mortes, para uma performance econômica não muito melhor do que a nossa. Os números de endividamento, desemprego e recessão mostram que ela é ruim também."

Na França, a estimativa do governo é de que um mês de lockdown gere cerca de 2,5% de retração do PIB. A conta da Covid-19 já fez o déficit público se multiplicar por quatro em 2020: a previsão é de que chegue a € 248 bilhões.

Uma das consequências disso, no futuro, é que o rombo possa gerar a implosão do atual modelo sistema de proteção social, que pode se tornar insustentável. Essa, destaca Plane, é uma das principais reflexões que a Europa deverá promover, no “mundo pós-pandemia”.

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