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França

Nem Macron nem Le Pen devem mudar crise na França, diz filósofo Alain Badiou

O filósofo francês Alain Badiou acaba de publicar um livro no Brasil
O filósofo francês Alain Badiou acaba de publicar um livro no Brasil
Texto por: Silvano Mendes
10 min

Visto como um dos principais pensadores contemporâneos, o filósofo francês Alain Badiou publicou em fevereiro no Brasil, pela Autêntica Editora, “Em busca do real perdido”. Autor de uma vasta produção intelectual, esse contestador, maoísta assumido e que deixou de votar desde 1968, conversou com a RFI sobre temas como capitalismo, política e corrupção. Para ele, independentemente do resultado da eleição presidencial francesa, a situação do país não deve mudar, mesmo com a possível vitória da líder da extrema-direita, Marine Le Pen.

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Badiou lecionou filosofia entre 1969 e 1999 na Universidade de Paris-VIII, antes de se tornar professor emérito da Escola Normal Superior de Paris. Foi nessa instituição de pesquisa, uma das mais prestigiosas do país, que ele criou o Centro Internacional de Estados da Filosofia Francesa Contemporânea.

Mas além de sua carreira acadêmica, que contou com publicações filosóficas de referência, ensaios políticos, romances e até mesmo experiências de sucesso como dramaturgo, ele chama atenção por suas posições políticas mais do que assumidas. Aos 80 anos, esse defensor do comunismo e dos imigrantes ilegais nunca teve papas na língua. Em 2016, por exemplo, ele deu o que falar ao chamar o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, sobre quem escreveu um livro, de “marginal”.

O voto é apenas a solução para que as coisas continuem do jeito que estão.

Nessa entrevista concedida em Paris, poucos dias antes da eleição presidencial francesa, ele se diz preocupado com a situação política da França, mas insiste, usando exemplos do contexto internacional, que a falta de rumo vivida por seu país faz parte de uma tendência que já começou há alguns anos. Além disso, ele se mostra cético sobre o peso real do voto diante de um cenário de crise.

RFI – O senhor não vota desde 1968 e, recentemente, chegou a declarar que “pelas urnas, a mudança está muito mais próxima da estagnação”. Então o que fazer se votar não é a solução?

Alain Badiou – O voto é, de uma certa maneira, a solução para algo. Senão ele não existiria. Mas ele é apenas a solução para que as coisas continuem do jeito que estão. É aí que está o problema, principalmente nesse momento difícil e incerto que vivemos. Podemos considerar relativamente patológica a eleição de Trump nos Estados Unidos, e antes dela a chegada ao poder de aventureiros como Berlusconi na Itália e Sarkozy na França, ou ainda o Brexit. A política está agitada porque continuar como estamos é muito difícil, mas principalmente porque ninguém propõe que não se continue do mesmo jeito. Estamos exatamente como no final do texto “O inominável”, de Beckett: “eu não posso continuar, eu devo continuar, eu vou continuar”. Isso resume bem a política de hoje.

RFI – O senhor diz com frequência que estamos vivendo um “vento reacionário”, que se manifesta pela chegada ao poder de partidos conservadores e até mesmo de extrema-direita na Europa, mas também pelo colapso dos regimes reformistas de esquerda na América Latina. Trata-se de um efeito dominó da globalização?

A.B. – Acredito que sim, pois a globalização é inevitável. Nos anos 1960 já se falava da dimensão multinacional das grandes empresas. É algo que faz parte da natureza do capitalismo e que, no fundo, não leva em conta as identidades, ao contrário do que pode se dizer. Esse é um ponto importante. Afinal, não faz nenhuma diferença se a circulação monetária é feita por homens ou mulheres, por franceses ou japoneses.

O Brasil vive um espetáculo muito violento atualmente, com essa passagem da era do PT para um sistema de revanchistas, apressados para demolir tudo.

Mas essa globalização indiferente às identidades traz desigualdades monstruosas, como na África, palco de um saque multicultural permanente. Estamos em um período em que vemos o ressurgimento do fascismo pois é sempre possível explicar para as pessoas que a infelicidade e a crise provocada pelo capitalismo são culpa das identidades. Os culpados são os refugiados, os árabes, os africanos, ou até mesmo os pobres, que incomodam os ricos por serem pobres. Os brasileiros, por exemplo, vivem um espetáculo muito violento atualmente, com essa passagem da era do PT para um sistema de revanchistas, apressados para demolir tudo. Como pano de fundo do colapso das esquerdas reformistas temos o colapso da possibilidade de uma outra via, de um caminho que tentaria uma saída do capitalismo.

RFI – A França se prepara para uma eleição presidencial muito incerta, alimentada pela retórica do medo. Marine Le Pen construiu um discurso do medo, enquanto os demais candidatos tentam convencer os eleitores usando o medo de Marine Le Pen. Retomando o conceito de seu livro, esse medo é “real”?

A.B. – Esse é um jogo perigoso, pois se há algo importante que a psicánalise nos ensina é que uma hora ou outro o “real” retorna. E esse retorno da realidade pode se manifestar de formas aterrorizantes. Eu já havia constatado que durante a presidência de Nicolas Sarkozy assistimos o surgimento do sintoma de medo. O governo de Manuel Valls também alimentou o medo. Esse estado de emergência por exemplo, é desproporcional. Não estou dizendo que o assassinato em massa não deve ser reprimido e controlado. Mas usar isso para modificar o aparelho constitucional, de forma a facilitar as atividades policiais é desproporcional. Cada um encarna o papel daquele que tem medo do outro, como se isso fosse um projeto político. Mas se analisamos de perto, vemos que os candidatos são praticamente idênticos. Até mesmo Marine Le Pen, caso ela chegue ao poder – como aconteceu com a extrema-direita na Áustria –, não provocará mudanças tão profundas. Finalmente, eles continuam trilhando o mesmo caminho da hegemonia capitalista, pois não propõem nenhum outro caminho.

RFI – Mas o senhor acredita que se Marine Le Pen se tornar presidente, a França continuará como ela é, sem nenhuma mudança real?

A.B. – O problema é esse “como ela é”. O governo balança a bandeira da “França republicana, laica, democrática”. Mas isso não é a exatamente a realidade de França. Claro que não desejo que Marine Le Pen chegue ao poder. E, sinceramente, não penso que ela tenha grandes chances, mesmo se depois da vitória de Trump temos que desconfiar de tudo, inclusive das pesquisas de opinião.

A ação de esquerda do Hollande se resume ao casamento gay. Para todo o resto, ele foi exatamente como os que passaram antes dele.

Mesmo assim, eu não vejo grandes diferenças estratégicas no sistema geral de propostas apresentadas pelos diferentes candidatos sobre as questões fundamentais do país. Eu vejo apenas diferenças de tonalidades. Finalmente me parece que vamos nos orientar rumo àquele cuja tonalidade é menos definida: Emmanuel Macron. O menos nítido de todos. Aquele que diz, da maneira mais modesta, que vamos continuar como antes. Ele diz, de forma muito justa, que continuar como antes é algo que não deve ser visto como de direita ou de esquerda. De qualquer maneira, será que Hollande era de esquerda? Sua ação de esquerda se resume ao casamento gay. Para todo o resto, ele foi exatamente como os que passaram antes dele.

RFI – Os escândalos recentes mostraram que vários políticos franceses, de diferentes partidos e tendências políticas, estão envolvidos em casos delicados na justiça. A corrupção é uma espécie de “lei do mundo”, como o senhor escreveu em “Em busca do real perdido”?

A.B. – Acredito que sim e cada vez mais. Penso inclusive que subestimamos o fato de que a natureza íntima do capitalismo é corrupta. Afinal, sua lei é a do lucro máximo. E o lucro máximo como lei geral das coisas é, do ponto de vista subjetivo, uma sublimação do gangsterismo. A corrupção é um elemento natural para as pessoas que estão no poder. Vemos com o caso Fillon. Uma parte de sua defesa consiste em dizer que o que ele fez é natural e que todo mundo faz isso.

RFI – Em um de seus livros, dedicado à juventude (“La vraie vie”, A verdadeira vida, em tradução livre) o senhor diz que os principais inimigos dos jovens são a paixão pela vida imediata e a paixão pelo sucesso, com o objetivo de se tornar rico. Qual pode ser a consequência dessa lógica a longo prazo?

Subestimamos o fato de que a natureza íntima do capitalismo é corrupta.

A.B. – Esse é o espetáculo que o mundo nos oferece atualmente: de um lado temos jovens ambiciosos, que estão em competição para cargos importantes e que frequentam rodas de decisões. Como Macron, que aos 39 anos foi banqueiro, é culto, talvez até mais intelectualizado que os demais candidatos, e que pode se tornar o próximo presidente da República. É uma vida de sucesso. E, do outro lado, temos os jovens de segunda geração (da imigração), frustrados e que, invés de resolverem os problemas de suas histórias de família, se organizam em uma direção mais ilusória e violenta, deixando suas vidas. Essa combinação faz com que o primeiro grupo acabe decidindo se fazemos ou não uma guerra contra o segundo grupo. É uma visão catastrófica.

RFI – Mas o senhor não fala apenas de coisas catastróficas. Um de seus livros, o “Éloge de l'amour” (“Culto ao amor”, em tradução livre), é sobre relações amorosas. Como o senhor vê a transformação das relações com as novas ferramentas informáticas, como os sites e aplicativos de encontro. Esses fenômenos também mudam a noção do “real”?

A.B. – Eu acredito que as relações tendem a caminhar rumo a uma espécie de abstração. Elas são enquadradas pelo modelo dominante da comunicação, marcado pela ideia de que procuramos “o que nos convém”. Há um verdadeiro mercado do que “nos convém”. As relações entre as pessoas, que elas saibam ou não, são estruturadas em uma orientação de mercado. Um site de encontros não é nada mais que um supermercado de encontros. Eu vou procurar o melhor produto. E por trás disso tudo, está um gestor do site, que lucra o máximo que pode com esse mercado de encontros. O resultado é que os encontros são cada vez mais cautelosos, enquanto que, penso que o interesse do aprendizado e da relação com o outro durante uma relação amorosa está justamente em sua dimensão do acaso. Encontrar alguém em circunstâncias não calculadas. É uma péssima ideia constituir um círculo de pessoas com quem nos relacionamos baseados unicamente em nossas preferências pessoais. Isso acaba como uma visão mais ampla das coisas. Esse princípio deve ser observado em tudo. Até mesmo uma organização política deve ter pessoas de todos os tipos.

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