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Pacientes de Covid de longa duração podem ser chave para isolar mutações, diz pesquisadora francesa

Fotomontagem com hospital municipal Gilberto Novaes em Manaus, rua comercial na área de Ueno, em Tóquio, imagem do microscópio partículas do vírus SARS-CoV-2, Estrutura da proteína SARS-CoV-2 N com 3 IDRs
Fotomontagem com hospital municipal Gilberto Novaes em Manaus, rua comercial na área de Ueno, em Tóquio, imagem do microscópio partículas do vírus SARS-CoV-2, Estrutura da proteína SARS-CoV-2 N com 3 IDRs © Fotomotagem com foto AP

Anne Sénéquier, codiretora do Observatório de Saúde do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS) da França, analisa o potencial das vacinas presentes hoje no continente europeu e sinaliza que as próximas duas semanas serão decisivas para se determinar se a França voltará ao lockdown total. Ela explica ainda o complexo mecanismo de mutação do vírus em doentes com Covid de longa duração, a principal hipótese do surgimento das variantes britânica e sul-africana. Sobre a vacinação pelo setor privado, como propõe o Brasil, ela bate o martelo: “completamente ineficaz”.

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O mundo amanheceu nesta terça-feira (12) com a notícia de que a variante encontrada no Japão seja talvez a mesma mutação que deu origem à nova cepa do coronavírus em Manaus, capital do Amazonas. Num planeta em alerta pelo grau de transmissibilidade das novas variantes do SARS-Cov-2, surgidas no Reino Unido e na África do Sul, os pesquisadores tentam compreender e limitar o processo inevitável das mutações do vírus, uma de suas estratégias de sobrevivência.

Para Anne Sénéquier, uma das principais hipóteses privilegiadas pela França sobre as mutações seria a presença do vírus em pacientes de longa duração de Covid-19. “Existem estatísticas sobre o que chamamos de “intervalos de confiança” sobre o número de mutações por mês que o vírus pode gerar. A hipótese que privilegiamos sobre o surgimento das variantes britânica e sul-africana repousa sobre um Covid mais duradouro em um paciente”, explica a pesquisadora.

“O fato de que o vírus fique mais tempo do que o normal em um mesmo hospedeiro oferece a possibilidade à partícula de se reproduzir e de ‘errar’ várias vezes antes de ser transmitido a outra pessoa. As mutações são bastante comuns durante a reprodução do vírus, que nada mais é do que se autocopiar, e cometer 'erros' durante o processo. A maioria desses ‘erros’ não produz impacto porque boa parte do material genético do vírus é inútil, e bloqueia a mutação”, diz a codiretora do Observatório de Saúde do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS) da França.

“Mas se aumentarmos a quantidade de tempo que um vírus fica sobre um mesmo hospedeiro, antes de ser transmitido, ao se replicar a partícula terá muito tempo para mutar diversas vezes e, quando passar adiante, poderá contaminar uma outra pessoa com 'erros' mais perigosos do que o normal”, detalha Sénéquier.

A pesquisadora lembra que existem casos de pessoas positivas para o coronavírus e assintomáticas, um fator a ser levado em conta durante o processo de mutação. “Cada caso é diferente do outro, tudo depende da imunocompetência do paciente. Muitas novas informações mudaram nossa maneira de pesquisar esse vírus, nem todos os pacientes de Covid de longa duração vão desenvolver mutações", destaca.

Real eficácia das vacinas

Sénéquier alerta para o fato de que, mesmo com as vacinas, é essencial tomar cuidado com essa nova variante do coronavírus. "A vacina protege apenas os vacinados, não a população como um todo. Na França, as duas vacinas que temos hoje, a da Pfizer e a da Moderna, nos impedem de desenvolvermos uma forma grave de Covid, mas não nos impede de transmitir o vírus a outras pessoas. É claro que não conseguiremos a imunidade coletiva em 2021, porque, até o momento, não temos as vacinas adequadas para isso", explica.

Anne Sénéquier acredita que o governo francês se enganou no que diz respeito ao timing da primeira campanha de vacinação na França. “Aqui a estratégia de vacinação se baseou muito sobre o medo das pessoas se vacinarem, que ganhou grande amplitude durante 2020. Na verdade, o Executivo tentou fazer uma campanha de vacinação baseado na hesitação desse fator humano, ou seja, no consentimento prévio da vacina”, diz.

“Eles tentaram fazer uma coisa perfeita, e se enganaram, porque não estamos num período normal para uma vacinação como a do sarampo, por exemplo. Estamos numa urgência sanitária. Não é uma coisa perfeita que precisa ser feita, mas algo eficaz e com rapidez”, argumenta a especialista.

“A França agora tenta corrigir o tiro, porque se dá conta, finalmente, que uma grande parte silenciosa dos franceses que esperava essa vacina com impaciência acordou enfim. A vacinação nos consultórios dos clínicos gerais será uma boa solução para atender massivamente a população francesa”, considera.

Uma volta ao lockdown total?

A pesquisadora afirma que a França precisa rapidamente baixar o platô atual de contaminações no país. “Um novo lockdown total não está descartado. Aqui fizemos a opção de manter as escolas e uma parte do comércio aberto e estamos em um platô alto há cerca de um mês”, diz.

“Temos hoje dois timings diferentes a serem considerados. De um lado, vivemos o impacto das festas de fim de ano, onde, mesmo com restrições, os franceses se encontraram com seu círculo familiar ou de amizades, e as contaminações aumentaram. Mas precisamos de duas semanas a partir de agora para conseguirmos medir realmente o impacto disso entre os mais vulneráveis, e, consequentemente, a ocupação de leitos de reanimação nos hospitais”, pondera Sénéquier.

Para ela, o confinamento radical vem se tornando a “última solução inevitável”. “Ainda estamos no toque de recolher, para alguns departamentos às 18h, e para outros às 20h. A linha de conduta do governo vem sendo cirúrgica: encontrar e isolar as pessoas contaminadas dentro das famílias”, analisa. “Por causa das festas de Réveillon, que reúnem públicos mais festivos, precisaremos destas semanas para realmente avaliar o contágio entre pessoas de outra geração ou portadoras de comorbidades." 

Vacinação em clínicas particulares não é solução

A especialista contesta a decisão do governo brasileiro de focar a estratégia de vacinação em consultórios particulares. "“Isso nunca dará certo, porque o fato de você poder pagar por uma vacina não garante que você seja vulnerável. E o que conta, em termos de Saúde Pública num primeiro momento, é a vacinação das pessoas mais vulneráveis”, explica.

“Existem aliás estudos recentes sobre a estratégia de começar a vacinação entre os países mais ricos. Isso diminui o número de mortes por Covid, mas se você começa a vacinar primeiro os mais vulneráveis vê-se uma diminuição na evolução da doença de cerca de 66%, em função das mortes ligadas à Covid-19. Mas se você começa a vacinar apenas entre os que têm meios para pagar a vacina, e se privilegia essa espécie de elite, a diminuição de mortes será apenas de 33%”, aponta Sénéquier. "O impacto mundial da Covid-19 acontece entre populações vulneráveis", conclui.

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