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"Trumpismo fanático" ameaça futuro dos republicanos nos EUA, diz especialista em extrema direita

A imprensa ultraconservadora norte-americana minimizou, na quarta-feira (6), a gravidade do ataque de Donald Trump ao Capitólio
A imprensa ultraconservadora norte-americana minimizou, na quarta-feira (6), a gravidade do ataque de Donald Trump ao Capitólio REUTERS - MIKE THEILER
Texto por: Márcia Bechara
7 min

Jean-Yves Camus, especialista em extrema direita da Fundação Jean-Jaurès, em Paris, detalha o funcionamento dessa nova facção ultrarreligiosa que parece emergir dos supremacistas brancos norte-americanos, e que mostrou sua cara na invasão do Capitólio na quarta-feira (6). Muito mais do que uma tendência política, o "trumpismo fanático" – uma espécie de seita que não admite contradições –, ameaça o futuro da democracia, das instituições americanas e do próprio Partido Republicano, que engendrou Trump, estima o analista.

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RFI: Como os supremacistas brancos vão se reorganizar a partir de agora?

Jean-Yves Camus: Penso que o problema não será os supremacistas. O mais grave do que se passou ontem e que vimos nas imagens de televisão é que, além dos supremacistas brancos, havia partidários de Donald Trump que são simplesmente ultraconservadores. Vi um cartaz que me pareceu extraordinário que dizia “Jesus Salva”. Isso é um slogan dos evangélicos, havia nesta multidão pessoas inspiradas por uma espécie de convicção religiosa que acreditava que a América fosse se tornar ateia ou socialista com a chegada de Biden. O mais preocupante é o que vai acontecer agora com toda essa metade norte-americana que votou por Donald Trump, e que vai muito além das pessoas que se manifestaram ontem em Washington. Porque existem pessoas hoje em dia que não se reconhecem mais no Partido Republicano. Isso é o mais preocupante: entre todos os eleitores republicanos, existe uma fatia importante que considera que todos que não seguem Trump, mesmo em suas elocubrações sobre as eleições “roubadas”, são traidores, considerados pelo próprio Trump como "Republicans In Name Only (RINO)", republicanos apenas no nome. E este é um sentimento que se espalha. Não é mais suficiente ser um eleitor republicano, é preciso ser “Trumpista”.

RFI: O Trumpismo ameaça a existência do Partido Republicano conservador?

JYC: Sim, Trump disse de maneira bem explícita em tuítes recentes que ele e seus próximos farão de tudo para desbancar, durante as eleições intermediárias de 2022, todos e todas do Partido Republicano que fizeram críticas ao presidente. Do meu ponto de vista, Trump tenta fazer a mesma coisa que fez com apoio do Tea Party, quando subjugou lideranças do Partido Republicano nas primárias. Ele terá certamente uma influência considerável sobre o que será o partido nos próximos anos.

RFI: Então se trata de uma ameaça real, não apenas uma performance de mau gosto

 JYC: Sim, esta é uma ameaça real. Estou convencido de que Donald Trump vai querer se apresentar nas eleições presidenciais de 2024, seja ele mesmo, caso não seja cassado, seja um candidato que ele apoie. E também não podemos nos esquecer que Trump é um homem rico, com apoio das classes altas, e, nos Estados Unidos, o dinheiro determina bastante a política. Se for possível constituir um grupo de financiadores com capacidade de opor a um hipotético candidato republicano oficial um candidato "trumpista", se houver dinheiro para que isso seja feito, haverá um grande problema no coração do Partido Republicano. Isso não é delírio, isso já inclusive aconteceu quando Trump, alimentado pelo Tea Party, conseguiu se opor a candidatos republicanos tradicionais.

RFI: Qual é sua aposta para o Partido Republicano contaminado pelo Trumpismo? Ele vai tentar se alinhar ainda mais à direita?

JYC: Acredito que a única possibilidade será que os QAnon do Partido Republicano deverão atacar Joe Biden, do primeiro ao último dia de seu mandato, em todos os assuntos possíveis, de todos os jeitos possíveis, para dificultar ao máximo sua administração, para que ele realize o mínimo possível. Isso seja nas questões ambientais, já que Biden já declarou que deseja voltar ao Acordo de Paris, mas também sobre diversas questões econômicas, securitárias e de relações internacionais. Os republicanos tentarão colocar entraves às nomeações que o presidente Biden submeterá à apreciação do Senado, mesmo se a vice-presidente Kamala Harris terá direito ao voto de minerva, num Senado divido ao meio. Biden pode não conseguir concretizar toda a sua vontade política de mudança. Harris detém o voto de minerva, mas, ao mesmo tempo, antes do voto, existe todo um processo de audiências para as nomeações, todo o trabalho das comissões, e, nesse caso, o esforço republicano será o de ganhar tempo, quer dizer, fazer o presidente e sua vice perderem tempo, tornando a vida deles extremamente difícil, para que os progressos desta dupla sejam os menores possíveis em quatro anos.

RFI: O que mais o impressionou na noite de ontem, durante a invasão ao Capitólio?

JYC: Eu me surpreendi pelo grau de ódio que havia entre aquelas pessoas. Também pelo fato deles atacarem diretamente a instituição. Todas essas pessoas que passam seu tempo dizendo que a Constituição é sagrada, que o “Pai Fundador” deve ser respeitado, eles quebraram as janelas do Congresso dos Estados Unidos, eles ameaçaram agentes federais, eles forçaram deputados, inclusive republicanos, a se esconderem no momento em que estes participavam de um processo constitucional. Fiquei surpreso pela violência dessas pessoas. Mas, é claro, havia algo de previsível no que aconteceu porque, de tarde, vimos Donald Trump dizer a seus partidários para marchar em direção ao Capitólio. Alguns dizem que Trump não apenas contesta o resultado das eleições, mas pensou seriamente em decretar a Lei Marcial para instalar os plenos poderes da Presidência, apoiados pelo Exército, o que, efetivamente, lhe permitiria fazer o que bem entendesse. Ele contava bastante também com o papel [do vice-presidente] Mike Pence. Eles estava convencido que Pence pudesse mudar o resultado das eleições. Mas Mike Pence é um homem prudente, apesar de ser ultraconservador, ele não seguiu as ordens de Trump. Tivemos a clara impressão de que Trump não possui respeito algum pelo Estado de Direito, ele pensa ter poderes absolutamente ilimitados, com um ego totalmente superdimensionado, e se enfiou no pós-eleição nesta espécie de realidade paralela. E quando as pessoas decidem viver numa realidade paralela, o pior é sempre possível.

RFI: Este movimento "trumpista" terá repercussões no Brasil de Jair Bolsonaro, aliado indefectível do atual presidente norte-americano?

JYC: Existe um ponto em comum entre o que se passou nos Estados Unidos e o que se passa no Brasil, em especial durante a eleição de Bolsonaro: o poder crescente das redes sociais. O fato de que a mobilização política não se faz mais apenas das maneiras tradicionais, campanha e jornais, mas que existe toda uma nova geração que faz sua cabeça a partir das redes sociais. São essas redes que tornam possíveis mobilizações como a de quarta-feira [no Capitólio], porque elas permitem um agrupamento rápido, uma convocação para que pessoas se reúnam num lugar específico, numa hora precisa, com uma maior flexibilidade de organização e uma maior discrição [dos organismos oficiais]. O papel das redes sociais é muito bem manipulado por Jair Bolsonaro, Trump  e seus partidários. É verdadeiramente algo que comove essa fração do eleitorado que se mobiliza.

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